Chegam e a praia estava calma e
deserta. A lua refletia na água, e a areia tocava suave nos pés.
Rafinha
pergunta se Letícia conseguia andar e ela só balança a cabeça positivamente.
Andam
até a areia e Rafinha tira a própria blusa para Le não sentar direto na areia
molhada e fria.
Sentam-se
e ficam observando o mar.
-
Eu queria que esse momento fosse eterno, sabia? – Ele comenta, olhando para as
estrelas que brilhavam no céu azulado.
-
Mas nada é... Infelizmente...
-
Por que não me contou?
-
Do quê?
-
Que tinha ficado... com outro homem!
-
Mas eu não fiquei com nenhum!
-
Como assim? Então como pegou AIDS?
-
Eu estava no hospital e minha gata apareceu. Acabou se machucando e eu fui na
sala de curativos pegar algo que a ajudasse. Sem querer, derrubei um vidro com
amostra de sangue e ele se espalhou sobre minha mão. Eu, Tonga, coloquei o dedo
na boca, e foi assim... Eu te amo, e nunca ficaria com outro cara!
-
Eu sei que não... Mas agora, está tudo bem!
-
Bem? Você julga a doença como algo bom?
-
Eu julgo o nosso momento agora como o melhor do mundo! Só sei disso!
-
Você tem as palavras mais reconfortantes, sabia?
-
E você só precisa ser si mesma para me fazer bem... – E os dois se abraçam.
-
Você leu minha expectativa de vida, não?
-
Li sim...
-
E com certeza sabe que vou morrer!
-
Você não vai não! Você é tudo pra mim, e nunca permitirei que vá embora!
-
Eu e você sabemos que essas coisas não dá para controlar só por um simples
desejo...
-
Eu te amo com todas as minhas forças, Letícia, e se você for, eu vou junto!
-
Você não vai! Vai viver sua vida até o último segundo, ter filhos, ser feliz
mesmo que doa... Mesmo se não quiser por você, vai fazer por mim!
-
Eu não posso... Como viver sem o amor da minha vida?
-
É só achar outro alguém... Você só acha que não porque está assustado e com
medo, mas com o tempo, vai perceber que eu só fui uma simples pessoa em sua
vida e que, os momentos que pareciam eternos, não passaram de marcos de uma
paixão comum...
-
Letícia, você não me entende, não é? Acha que vou conseguir viver como se nada
tivesse acontecido, como se eu não fosse um ser guiado pelo amor... Eu não
aceito e nunca vou aceitar não ter você perto de mim!
-
Olha, por mais que eu morra, sempre vou estar perto de você... Pois eu te amo
como nunca amei um homem, e não vou conseguir viver em paz sabendo que quem eu
amo vai se sacrificar por causa de uma besteira minha!
-
Você foi presa por mim, não foi?
O
silencia permanece.
-
A Wanessa matou aquele cara e ameaçou te matar! Eu preferia ser presa a ficar
com minha vida chamada Rafinha Bastos em perigo!
-
Viu? Eu tenho muitos motivos para ir junto com você! Deus! Se estiver nos
vendo, deixa eu ir no lugar dela! Eu a amo muito, e prefiro estar morto a vê-la
assim! O senhor entende?
-
Para, Rafinha! Eu te amo muito! Não piora as coisas!
-
Ok... Vamos falar de coisas boas... Lembra de quando eu te esperei no serviço e
te dei flores? Ligava no seu trabalho a toda hora? Eu parecia um idiota, não?
-
Parecia, e é o menino que amo, isso sim! Eu me lembro de cada coisa nossa!
Lembra de quando fomos ao restaurante e eu caí em seus braços? – E assim dão
várias risadas e se divertem muito.
-
Nós fomos muito felizes, não? – Le comenta, quase chorando.
-
Fomos... E vamos ser muito mais!
-
Ainda com isso?
-
Você sabe que sim...
-
Ás vezes eu penso que nada é por acaso... Acho que as pessoas são ligadas por
laços intensos, e uma obra do destino as cruzam no mesmo caminho. Imagino o número
de pessoas que sonham com os encontros perfeitos e acabam se encontrando
inesperadamente com quem amam. Sei que tudo tem um motivo e só devemos aprender
a vê-lo.
-
Esse nosso encontro tem um motivo?
-
Tem sim! O motivo é o nosso amor!
-
Exatamente!
-
Agora, posso fazer um pedido?
-
Todos que quiser...
-
Quando eu for, você poderia ler este bilhete? – E ela tira um papel do bolso.
-
Eu não quero que isso aconteça!
-
Só leia!
-
Fazer o quê... Eu só queria saber porque tudo tem que ser assim...
-
Assim como?
-
Ah, o Danilo e a Taianne com um filho, a Isa e o Felipe com um casamento, e a
gente aqui, com você doente e eu com o coração doendo...
-
Doendo?
-
É, por você!
-
A gente viveu com tantos momentos bons... Há pessoas que nem isso tiveram e nós
aqui, tristes... Eu só quero uma noite feliz ao lado do homem que amo... Posso?
-
Pode... – E ficam abraçados vendo o mar.
O
tempo não lhes tinha reservado os melhores momentos de suas vidas, mas o amor
vence tudo... Ou será que não?
Letícia
não queria morrer e deixar sua vida na pior situação possível, mas não podia
controlar nada.
Rafinha
tenta engolir aos poucos a dor de perder sua amada a qualquer momento, mas seu
coração pedia por ela.
Nada
é por acaso.
- Rafinha, a cada
momento eu me sinto mais fraca e sinto que chegou a hora de dizer tudo que
quero e preciso... Saiba que minha vida toda eu te amei, e todos os momentos
ruins que passamos só aumentaram o meu amor, pois eu tinha o melhor cara do
mundo ao meu lado! Promete para mim que vai viver bem sem a minha presença, e
vai reconstruir sua vida aos poucos?
- Prometo... – Ele diz,
sem conter as lágrimas.
- Deixe de ser esse
teimoso, viu? Você ainda vai ser muito feliz sem mim! Eu queria poder casar
contigo, ter filhos, e viver até bem velha ao seu lado... Mas não posso! Eu te
amo, Rafael Bastos Hocsman, com todas as minhas forças e por toda a minha vida!
- Eu também te amo,
Letícia, e vamos aproveitar essa noite intensamente!
- Errado, nós já
aproveitamos ela intensamente!
- Mas eu... – E Le coloca
a mão sobre sua boca.
- Não precisa dizer
nada! Eu te amo, e é isso o que importa! – E os dois se beijam. Um beijo calmo,
mas com muito amor.
O mar estava sereno e a
lua refletia nele intensamente.
Tudo parecia ter
desaparecido, e os únicos seres pareciam ser Rafinha e Letícia, unidos por um
amor maior que tudo.
Aos poucos, Rafinha
percebe que o corpo de Le estava esfriando, e os lábios dela já não beijavam os
dele. A abraça bem forte e chora impulsivamente. Ela já estava morta.
Com dificuldade, pega o
bilhete e o lê: “Nada é por acaso”.
Em meio a um choro
constante, mexe nas coisas do carro e pega uma faca.
Olha para sua amada e a
beija delicadamente.
Deita na areia, ao seu
lado, e escreve outro bilhete.
Rapidamente, crava a
faca em seu próprio peito e perde os sentidos, indo junto ao seu amor.
Agora, alua perdia seu
brilho e a maré começava a subir. Ali, naquele local maravilhoso, jazia dois
corpos inertes. Juntos, com muito amor no coração, foram ser felizes num lugar
desconhecido, e com a certeza de que nada é por acaso.
Do lado dele, o bilhete:
“Há promessas que não
conseguimos cumprir”. Ele fez tudo aquilo por ela e, por mais que não tinha
cumprido sua promessa, estava em paz e, como tudo na vida, as coisas se vão, os
momentos não são eternos, as pessoas só estão de passagem e nada é por acaso.
FIM.